Espaço Aberto - crônicas, poemas, contos, poesia, frases - autora Márcia Carrano

Antigamente como hoje - Márcia Carrano

          Era um coronelão daqueles que mandavam e desmandavam. Moreno, alto e forte — no corpo e na vontade. Tinha influência política e financeira em toda a região. Dono de terras e mais terras, mas com pouca instrução, mesmo porque, naquele principinho de século XX, era incomum o estudo. Tonho Carvalhedo de Palmeira Tostedo era ainda dono de mulher muito das especiais para tanto músculo, dinheiro, terras e cavalos: a agora Rosa Alencar Assis de Palmeira Tostedo. No final do século XIX, conheceram-se, quando ele passava, com sua tropa-trupe, por Mariana. Imagine o acaso o que não faz! Ela, aluna interna em colégio — algo raríssimo na época: mulher estudar. E, mais raro ainda, a passeio pelas ruas, acompanhada das freiras e das colegas.

          O cavalo baio do coronel quase passou por cima dela. As mãos da madre, branquelas mas decididas, a salvaram. O homem, no entanto, cismou de descer do animal e arrumar a mais disparatada confusão! Em vez de se desculpar, como faria um cavalheiro, foi é muito cavaleiro mesmo, pelo menos para a época: A senhora madre  é uma irresponsável carregando esse bando de mulher pelas ruas como se fossem éguas soltas no pasto!

          A freira ficou vermelha, roxa, branca, azul-marinho, e não conseguiu dizer palavra. Rosa Fernandes de Alencar  Assis  saiu  — inesperada — em defesa de todas com uma delicadeza incisiva: O senhor é que deveria manejar melhor o cavalo e esse bando de homens armados. Afinal, estão passando por ruas. Se fosse pelo mato a que estão acostumados...

          Coronel Tonho Carvalhedo gostou da mulherzinha atrevida. Daí ao casamento foi um pulo... até a fazenda do coronel José Trancoso de Alencar Assis, pai da moça, o qual rapidamente desistiu de dar educação esmerada para a filha. Portanto, dificuldade houve nenhuma: naquela época pai não negava filha para coronel rico e influente.

          Foi assim que Rosa Fernandes de Alencar Assis tronou-se, ou melhor, tornou-se Rosa Alencar Assis de Palmeira Tostedo. Aumentou nome, prestígio, dinheiro, embora ficasse esquecido o livro apenas começado. Aliás, algumas parcas linhas que bastaram para gerações e gerações da família se orgulharem da ancestral, quase escritora de... romance? contos? poemas? receitas culinárias?

          Quanto ao que aconteceu ao casal... não dá para imaginar. Deu de tudo. Contar? Só uma coisa aqui e outra ali...

          Tonho, moreno forte, gostava de comer bem, principalmente carne: matava boi, matava leitões, matava cabritos, tudo isso às vezes para um único almoço. Não estou exagerando não. A casa da fazenda vivia cheia de agregados, de parentes passando férias que duravam anos. Isso sem contar os capangas, sempre à disposição do coronel para matar gente inoportuna. E eram muitos e precisavam de se alimentar direitinho. Rosa pairava nesse ambiente acima de tudo e de todos, mas Tonho, ah! Tonho fazia a quase escritora voltar à realidade, e com gestos teatrais. A história da suã de porco (conhece isso?) era uma.

          Antes de sair a cavalo, Tonho prevenia: Rosa, não quero saber de suã magra. Mande deixar bastante carne, muita mesmo, ouviu?  É que a mulher tinha mania de mandar raspar bem a carne. Com isso a suã, com couve e fubá, ficava só osso, porém o lombo de porco, assado com batatas, vinho e muito tempero... hum! uma delícia. O coronel queria o contrário: suã gorda que ele se refestelava comendo com gosto, chupando os ossos. Mas sabe que não adiantava? O homem falava, pedia, prevenia e a mulher insistia na teimosia. Ordenava que as cozinheiras raspassem a suã. O coronel sentava-se à mesa e vinha a reclamação. À vezes, ela se fingia de surda e muda, às vezes dizia algo: Tanta carne de boi, de cabrito... lombo bonito, grande... pra que suã gorda?  Mas falava isso meio sussurrando. Os de perto ouviam. E quando Tonho perguntava o que ela estava dizendo: Nada não! Estou aqui rezando um pouco. Ele, ateu; ela, muito rezadeira. Por isso ele acreditava.

          A cena foi se repetindo... se repetindo até que...

          Um dia, famintos todos, sentaram-se pra comer. A mesa... ah! cabritos assados, galinha ao molho pardo, leitoas tostadinhas, lombo gordo e... suã.. magra... raspada... bem raspada.. quase só osso... ah! nuvens negras iam chover... iam chover... afinal o coronel não era homem para brincadeira... mandava matar gente como quem manda matar porcos. Por dá cá aquela palha, como diziam os antigos. Um friozinho percorreu espinhas sensíveis só de olhar a suã magrinha, magrinha... pela enésima vez...  Tinha até gente duvidando da macheza do coronelão.

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          Tonho fica lavando as mãos demoradamente para esperar todos se sentarem. Ninguém comia antes de ele dar início à fartança. Os agregados, as visitas, os filhos e principalmente a mulher em silêncio absoluto: o dos outros, de medo; o dela, de coragem calma. E a suã ali no meio do vazio perigoso que impregnava tudo com a força do que está para acontecer.

          O coronel percebe que o tempo de lavar mãos já havia sido suficiente. Uma confusão de sentimentos chamuscava o ar. Ele resolve então dar conta da curta distância que separa a pia da mesa de almoço. Caminha meio arrastado, medindo os passos para conter a fúria interna, a que o fazia respeitado em toda a região. Fúria descomunal que já havia exterminado muita gente. Na mesa, olhos baixos, os famintos quase sem fome, alimentados de pânico. Apenas Rosa, Rosa Alencar Assis de Palmeira Tostedo, a escritora de dez linhas, a aluninha do primeiro colégio para mulheres no país... apenas Rosa, desafiadora, se mantinha fleumaticamente à espera.

          — Rosa, por que essa suã magrinha? 

          Estremecimento geral.

          — Pra deixar o lombo gordinho, Tonho.

          — Rosa, Rosa, pra que essa suã magrinha, Rosa?

          — Pra você comer, Tonho, pra você comer.

          Ninguém se mexe na mesa: o pavor é máscara que cada um ajuda a compor com tremelique próprio.

          O coronel nem se levanta. O gesto rápido. Depois nada restará. De um só arranco de toalha, manda tudo ao chão: galinhas, cabritos, leitões, lombos e... a suã de porco, magrinha, magrinha. Tudo esborrachado, misturado, esparramado.

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          Depois disso, Rosa Alencar Assis de Palmeira Tostedo e a suã continuaram as mesmas: a mulher raspava-raspava; a suã... magrinha-magrinha. O coronel, irritado-irritado, vez ou outra praticava arranco de toalha: pelos ares, num espetáculo de pirotecnia gastronômica, explodiam almoços, jantares e ajantarados.

          Filhos, agregados e até convidados ilustres olhavam boquiabertos — e calavam a fome esporádica.

 

 

CARRANO, Márcia. Antigamente como hoje. In ____. Olhar de espanto. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013, p. 13-20.

 

 
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