Ventos alísios na poesia

Joaquim Branco

CARRANO, Márcia. Vento leve.
Juiz de Fora: 2007.

O texto literário, que tanto se apresenta como prosa de ficção ou em forma de poesia, traz, mesmo que sutilmente, a marca do pessoal, seja biográfico e/ou das impressões de uma visão de mundo do poeta. No caminho, o efeito mimético produzido resulta na obra de arte.

Na prosa, este jogo real-virtual recebe o véu da ficção, que ‘ilude’ e ‘aprisiona’ o leitor nas malhas da escritura, composta também por personagens, tramas, espaço, tempo etc.

Por outro lado, “o manto diáfano da fantasia” a envolver o poético tem sua complexidade na simbologia das ideias e mitos, no traçado do verso, no cifrado do texto e na procura de um elemento muito caro à poesia: a síntese. O poeta ‘se esconde’ no arabesco da forma e assim chega à mímese, essencial à composição de sua obra.

Na pesquisa em direção à melhor e mais adequada linguagem, um dos veios mais contemporâneos é o do sintetismo ou da contenção verbal. Nele se inscreve o novo livro de Márcia Carrano Vento leve, para cuja consideração valem as observações feitas e as a seguir.

Disposto em formato horizontal, ótima capa de Dounê, o livro de Márcia é todo composto de poemas curtos como cartões destacáveis, alguns como hai-kais, e todos na linha da poesia reflexiva.

Temas como o cotidiano, o amor, o tempo, vida, diálogo e outros vão se delineando à medida que a leitura avança, ora utilizando a metalinguagem, ora a língua despojada e simples, invariavelmente dotadas da tensão-distensão que as palavras podem apresentar quando escolhidas artisticamente.

Boas soluções a poeta encontra principalmente no dia-a-dia, numa naturalidade de quem trata com familiaridade a linguagem poética, como aqui:

“escorro a tarde
de poema-em-poema
que vou compondo assim
assim meio Oxalufã
num mundo ancestral
de que desconheço
os mistérios.” (p. 69)

Da experiência vivida também saem lamentações, porém sempre rápidas buscando a dicção do livro:

“fugir da trilha tão fácil e simples
de calar no corpo a emoção
é a luta única que me resta agora
que sei da vida mais do que queria.” (p. 61)

No vago destempero e na ânsia do amor no tempo, surge a síntese procurada:

“o amor eu queria mas não sabia:
amor não se determina.” (p. 37)

O “outro” não passa despercebido ao eu-lírico, que revela a preocupação pessoal-social reforçada nas assonâncias em “o” e nas aliterações em “d” que se unem compadecidas na perfeita compactação dos versos:

“dor do outro
doendo doída
certeira em mim
como se minha
fosse.” (p. 79)

Ou no afastamento da própria poesia para dar lugar ao real afogado na dureza dos dias que pesa nos dois últimos versos:

“afasta esta poesia doida
pousando incômoda
em meus dias:
preciso viver
de pão-sal-e-dor.” (p. 125)

No poema a seguir, a morte invade o cotidiano para validar o momento que passa, numa feliz escolha de palavras:

“todas as mortes
me pesam
num dia qualquer
sem aviso.” (p. 47)

Aliás, nesses dois últimos versos estaria ‘escondido’ um outro título para o livro, que poderia conter tanto a insinuação de leveza que a autora quis passar com seu “vento leve” como o tom de inesperada surpresa contido nestas palavras: Num dia qualquer sem aviso. Um longo título que se espraia em breves e significativos poemas.
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