"Uma folhinha de malva espanta mau-olhado, que nem arruda", minha mãe dizia, com um carinho e cuidado que jamais esqueci. E punha uma na minha orelha. Me sentia protegida. Era como se o calor dela me acompanhasse quando eu saía com a cesta de verduras, para vender ou para entregar. A gente era pobre, muito pobre. Talvez por isso o juiz da cidade tenha usado e abusado de mim. Nos meus nove anos, não enxerguei maldade quando as brincadeiras dele começaram. Por isso eu até as repetia com outros. Depois não sei se... Mas não quero falar disso. Já passou. Só volta uma dor doída quando a voz de meu pai martela lá dentro: "Sua ordinária, some daqui. Não volte nunca mais". Lágrimas da mãe. Rosto doendo da mão bruta do pai. Eu não chorei, ganhei a estrada da vida.

Sou orgulhosa, mulher forte: num peço nada não. Não pedi antes e não peço agora. Dou a cada homem o pedaço de carne que lhe cabe. Deixo que façam o serviço — e pronto. Se lamento? Num lamento coisa nenhuma. Num choro não. Já disse: sou raça de mulher forte que nem minha mãe. E alegre, muito alegre. E os homens gostam de mim. De todas, sou a mais procurada. Dá inveja nas outras, ponho malva na orelha e fico protegida.

Se já gostei de algum homem? E mulher da vida pode lá se dar desses luxos?! Se gostei... que adianta? Adianta é não passar fome, não ficar debaixo de ponte, desgraçada e perdida no meio de vadios.

Se já gostei de algum homem? E gostar, amar... isso lá é coisa do meu ofício? É muito tempo de calo no peito e no corpo. Depois nem peito nem corpo sabem falar.

Se tive filho? Feto é filho? Tive feto.

Gostar... feto... filho...

Ele chegava assim com cara de bebê: rostinho liso e jeito de pidão. Olhava ele e via eu. Via eu lá nos meus nove anos. Experiência tinha nenhuma. Meus trinta anos pareciam três vezes a idade dele, mas era não. Dezesseis anos... talvez nem tanto.

Primeira vez veio com outros. Eles empurrando ele pros meus braços e ele com cara de medo. Tinha jeito de criança em primeiro dia de aula.

Nome dele, sei não. Sei nada. Apenas me lembro que depois vinha sozinho e chegava domingo de manhã.

Foi nessa época que comecei a achar as manhãs de Belo Horizonte lindas na sua claridade e leveza. Sentia dentro de mim um não sei quê... me sentia leve, muito leve, livre de qualquer pecado e cheia de luz. Às vezes, parecia que Deus estava ali a um toque de minha mão. Ou estava ali naquela brisa roçando meu rosto. Nessas horas, pensava que morrer podia até ser bom. No outro mundo devia haver o mesmo tipo de sentir que tava sentindo.

Se amei... mulher da vida vive, apenas vive. Mas ele chegava com aquele jeitinho de anjo de altar. Nunca aprendeu nada comigo. Nunca quis. Às vezes parecia apressado. Nunca perguntei por quê. E mulher como eu pergunta alguma coisa pra valer?

Se eu gostava? Deixava tudo cheirosinho pra ele. Esfregava malva nos lençóis; tomava banho de malva; esfregava malva em mim.

Se eu... engraçado! Tô vendo ele chegando. Reparei um buço onde devia haver bigode. Mas bigode ele num tinha não. Nem aqueles cabelinhos ralos, aloirados, tinha reparado antes. Hoje ele estava apressado, mas carinhoso como sempre. Perto dele me esquecia do que era. Ele foi me levando pra cama rápido demais. No entanto, passava a mão em mim com cuidado e cheirava meu corpo e suspirava. Passei as coxas sobre ele e ficou logo sossegado.

Eu... ardia. Eu... mas eu não existia. O cheiro de malva, ele estirado em meus braços num abandono de criança...frágil, inocente... ele era eu. Ele era eu vendendo verduras. Ele era meus nove anos.

Embalei-o — e com ele todos os fetos. Ajustei-o em meu corpo e protegi seu sono. E fiz o que nunca tinha feito assim, daquele jeito... beijei ele... beijei ele dum jeito de malva... beijei ele dum jeito de vida... dum jeito de santa...

E o que houve? Nada. Apenas uma folhinha de malva amassando o ar.

Uma folhinha de malva.

Na Rua Guaicurus.

CARRANO, Márcia. Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 31-35.
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