Janjete indo-se. Olhos alongados no adeus. Coração meu esfumaçado na dividida.

                    A carroça a pegou na casa, nossa casa, na esquina de entroncada rua com olhar de despedida.

                    E o lamento... lamento ecoando no espaço, alto e bom som, despertando soníferos e provincianos bocejos alimentados pela mesmice, dia após dia se compondo e recompondo.

                    Fiquei sem Janjete e instalei no peito a primeira e indelével dor de amor perdido. Jamais se irão de mim os olhos dela. Lastimosos, agudos e infinitamente afiados pela dor.

                    Na porta, minha mãe indiferente. Da parte de trás da carroça, o olhar de Janjete se estendendo. Por que a separação? Por quê? Mamãe sabia: Janjete a incomodava. Eu agarrada, sempre agarrada a ela: esquecida da família cascrocodiliana, mergulhava dias e noites no afeto de Janjete.

                    No entanto, ela se ia. Não queria a solidão... Outra vez a mãe, alta e intata, óculos grossos no rosto duro, apenas via. Via com olhar de quem se livra, se livra de...

                    E Janjete olhando triste. E Janjete sofrendo. E eu sofrendo...

                    ...sofrendo o primeiro adeus, sofrendo a impotência dos sete tolos anos iniciais de vida. Até então sabia nada...

                    Desde que Janjete foi expulsa de casa, sofro angústia no peito — e tenho na face este olhar.

                    Hoje me afasto dos humanos, frios como minha mãe eliminando de nós minha primeira cachorrinha. Cuido de animais, amigos como Janjete. Janjete...

                    Mãe, pai, irmãos, todos se foram. Como Janjete.

                    Resto aqui. Não sei o que fazer da dor na perna que me inutiliza. De Janjete morta que me paralisa e impulsiona.

                    Cachorros latem ao redor — o apartamento se encheu deles, de todos eles, excluídos de... —, afago-os e os tranquilizo. Cravada em mim, a certeza de que animais são mais do que humanos.

                                                       ________________

                              Fora eles, os risos escarnecedores nas praças acanhadas, a indiferença fraterna na casa arrasada...

                              Me restou.. ainda me restou... este olhar de espanto.

 

 

 

 

CARRANO, Márcia. Janjete. In ____. Olhar de espanto. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2013, p. 9-12.

 

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