A universidade da cotinha

A Universidade da Cotinha

Ensino, aprendizagem, educação, pesquisa requerem seriedade — sempre. A Escola não precisa de amigos. Não necessita de cotinhas. Não pode ser tapa-buraco de escavamentos abissais que a sociedade hodierna, materialista e injusta, produz.

É premente que se transforme em nicho de profissionais bem-formados, de educadores com coragem de estimular tanto o crescimento intelectual quanto o senso de justiça. Inadiável que os jovens tenham consciência da responsabilidade individual no estabelecimento de sociedade equânime e inclusiva. Atualmente, não se sabe para onde fugiram os educadores, acovardados pela perseguição, sutil, da escola-empresa, dos pais-patrões, dos alunos violentos, dos governos exploradores.

Como se não bastassem os inúmeros problemas, cuja solução sequer é cogitada, cada vez mais se vulgariza o querer transformar a escola em balcão de pagamento. A sociedade foi e é injusta com os negros? A escola paga. Com os índios? A escola paga. Com os estudantes do ensino público? A escola paga. A lista é interminável. Como fatiar matematicamente a universidade brasileira? Há uma onipotência universitária capaz de extinguir o inextinguível?

Que escola é essa? Banco ou balcão? Doar uma cotinha para grupos injustiçados entrarem pelas portas do fundo levará a quê? À disseminação da ignorância ou à promoção do conhecimento? A sociedade brasileira surgirá para o mundo como exemplo de “justiça escolar”? O pão de cada dia se distribuirá, fraterno e mágico, entre todos? Estraçalhado em fragmentos, o sistema educacional brasileiro, empurrado cada vez mais para os cantões escuros da falta de identidade, ressuscitará luminoso?

Cada sociedade tem a escola ou Escola que merece. Transformem-se sociedade e escola e se estabelecerá um círculo virtuoso em que a excelência de uma ampliará a da outra, voltando sempre a se aperfeiçoarem contínua e positivamente.

Mas esse é processo demorado, e até doloroso, que inclui todas as instituições e todos os indivíduos da nação — não apenas a escola. Imprescindível, para o sucesso da empreitada gigantesca, dispensarmos falsos e pirotécnicos atos de estabelecimento de justiça. Temos contas a acertar com todos os excluídos, muito mais numerosos que os incluídos, porém contas e cotas guardam apenas semelhança gráfica.

Extirpar a corrupção que corrói implacável qualquer possibilidade de justiça; estabelecer limites, a partir da família, para jovens que se divertem matando mendigos, índios e outros excluídos; ouvir a voz de Rui Barbosa para, na escolha dos governantes, lembrar a diferença entre política e politicalha; fiscalizar o cumprimento das leis e punir realmente os infratores; tudo isso ajudará a reconstruir uma Escola íntegra, cuja função de instruir e educar se efetivará, se houver respeito aos profissionais da Educação, estejam eles atuando como professores em creches infantis ou em programas de pós-graduação.

Indispensável ainda não nos esquecermos de que, como pais-educadores são suporte social, mestres-educadores constituem a pedra fundamental da Escola.
 

Márcia Carrano

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